quinta-feira, 12 de agosto de 2010

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Ernesto Sabato e a arte
















Gosto de tudo que Sabato escreveu. Um artista admirável. Algumas linhas do livro "A Resistência":

“A arte foi o porto definitivo onde preenchi meus anseios de navio sedento e à deriva.Cheguei a ela quando a tristeza e o pessimismo já haviam roído meu espírito de tal maneira que, como um estigma, ficaram para sempre entrelaçados à trama da minha existência. Mas devo reconhecer que foi justamente o desencontro, a ambiguidade, esta melancolia ante o efêmero e o precário, a origem da literatura em minha vida.”

O último leitor, de Ricardo Piglia



Estou lendo "O último leitor" do argentino Ricardo Piglia. São ensaios comoventes sobre a sedução da leitura, a relação do ser humano com os livos - leitura e viagem, ler como paixão cotidiana, visceral. Destaco o seguinte trecho do capítulo "Ernesto Guevara, rastros de leitura":

“Poderíamos falar de uma leitura em situação de perigo. São sempre situações de leitura extrema, fora de lugar, em circunstâncias de desorientação, de morte, ou sob o assédio da ameaça de uma destruição. A leitura se opõe a um mundo hostil, como os restos ou lembranças de outra vida.”

Leitura fascinante!

terça-feira, 27 de julho de 2010

Malditas sejam todas as cercas

















Malditas sejam todas as cercas!
Malditas todas as propriedades privadas que
nos privam de viver e de amar!
Malditas sejam todas as leis, amanhadas por
umas poucas mãos, para ampararem cercas e
bois e fazerem da terra escrava e escravos os
homens!

(Pedro Casaldáliga, poeta do Araguaia)
Foto: Sebastião Salgado

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Treva Alvorada: novo livro de Mariana Ianelli












Flor do Ofício


Emboscada no silêncio
Eu preparo a rosa inútil
Com as horas que salvei
Do desperdício.

Feito um verme
Decompondo ceticismo
Em força indômita,
Preparo e deito essa flor
No teu caminho
Para quando o teu corpo
(Tão quebrantável quanto o meu)
For sozinho pastorear
Seus demônios no vazio.

Quase dois mil anos
Guardado no deserto
Um salmo esperou
Para recobrar sua melodia –
E eu não te esperaria?



sexta-feira, 23 de julho de 2010

O jacaré do Siron manda lembranças


Em sua discreta condição mineral, repousa, maliciosamente, a um milímetro do nariz do Espaço Cultural de Palmas, o imortal jacaré de pedra, obra do artista plástico Siron Franco. O animal-arte é silencioso, nada diz, mas anda insone com os acontecimentos artísticos destas paragens. Um dos fatos mais importantes ocorridos nesses últimos vinte anos foi a manifestação do presidente da Associação dos Artistas Visuais do Tocantins (Avisto), Francisco de Carvalho, quando paramentou-se de morte e protestou frente ao prédio da Fundação Cultural do Tocantins, por conta do suposto descaso dessa instituição para com a classe artística tocantinense. O ato virou caso de polícia. Eis a ira dos deuses; a maldição das bruxas!

O artista que não incomoda com sua obra e suas ideias iguala-se a estilista de dondocas requintadas; literatura de auto-ajuda; matrimônio intelectual de Hebe Camargo com Alexandre Pires. Nossa apatia artística, intelectual, política, no Tocantins, daria um belo quadro para o Febeapá do saudoso Stanislaw Ponte Preta, nossa agonia pública, à prestação, sem pudor, com extrema-unção, tudo direitinho. Seria este, talvez, o momento de lermos silenciosamente, mais pelo título que pelo conteúdo, os livros “Os sapos de ontem” e “Os deuses de hoje”, do pestilento clássico Bruno Tolentino.

Não é necessário ouvir a amputada orelha de Van Gogh, para constatar que nenhum governo estadual ou municipal (no caso de Palmas) dispensou a devida relevância à agenda artístico-cultural desta terra de poeira e sol e muita história e criatividade engavetadas. Ilusão das ilusões! Da Glória de Bernini ao submerso distrito Canela, as artes de modo geral nunca foram causa de líderes políticos que ignoram a importância das manifestações artísticas na vida de um povo, na formação cultural das novas gerações.

Em Palmas, sem contar os demais municípios, é quase um milagre, digno de canonização, contar com ações permanentes ou eventos culturais expressivos promovidos pelo governo estadual ou municipal, dos quais a comunidade possa usufruir ao longo do ano. O Espaço Cultural, especificamente o Teatro Fernanda Montenegro, nasceu sob a sina de mais reformas que espetáculos. O auditório do Memorial Coluna Prestes parece uma miragem fantasmagórica, intocável.

Penso na serenidade mística do jacaré do Siron, arte que fala um idioma secreto que até Darwin se arrepiaria. A natureza ri da cultura, como num belíssimo conto de Milton Hatoum. Posso entender que não foi em vão aquele maldito verso do poeta Manoel de Barros: “No osso da fala dos loucos tem lírios.” Levanta, Giordano Bruno! O jacaré do Siron manda lembranças. Cantemos: a nós descei, caríssima luz!

terça-feira, 29 de junho de 2010

Show com Marina de la Riva
















Foi no Terraço Shopping, Brasília. Dia dos namorados. A bela e talentosa Marina de la Riva cantou e arrebatou os presentes - pura magia musical. Constância e eu estávamos lá.Uma maravilha!

Marina de la Riva é carioca de nascimento, tem o coração latino, filha de mãe mineira e pai cubano.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

O mundo tem que ser outro















(Proferido dia 25/06/2010, por ocasião do encerramento do curso de Especialização em Gestão Pública e Sociedade (UFT), 1ª turma).


Caros colegas,

Há sete dias recebíamos a notícia do desaparecimento físico do escritor José Saramago. Alguém já escreveu que “A morte pesa demasiado aos que ficam.” Pesa muito mais, é claro, quando se trata de um ser humano como José Saramago, cidadão que lutou incansavelmente contra as injustiças sociais, um escritor comprometido com os princípios da solidariedade, da verdadeira democracia, da dignidade humana. Saramago tinha uma estreita ligação com o povo brasileiro. Vale lembrar que prefaciou o livro ‘Terra’ de Sebastião Salgado, cujos direitos autorais foram cedidos em conjunto com o autor e também o músico Chico Buarque ao MST. Certa vez, Saramago manifestou-se a respeito de sua vida e morte nos seguintes termos:

“Espero morrer como tenho vivido, respeitando-me a mim mesmo como condição para respeitar os demais e sem perder a ideia de que o mundo deve ser outro e não esta coisa infame.”

Esta assertiva nos leva a refletir sobre as relações de respeito para com a vida humana e as condições estruturais (política, econômica e social) em que vivem as mais diversas populações do mundo.
O fato de termos concluído esta especialização em Gestão Pública e Sociedade, por si só, não me parece um grande feito, mas o que faremos com os conhecimentos que dela assimilamos, isso sim, pode ser o fator mais expressivo desse exercício acadêmico.

Não creio em nenhuma formação acadêmica que se pretende, mascaradamente, neutra no campo político; pois nenhum segmento social, instituição ou o que quer que seja, está isento de uma cor política. Neste caso, quero salientar que esta especialização foi salva, enquanto ato político-educacional, pela grandeza de espírito do Édi, que, com ação democrática, inovadora, audaciosa, buscou oferecer-nos um curso diferente de tantos que vemos por aí, de pseudo-especializações vazias de conteúdos e pobres de seriedade política. A Universidade, hoje, está do lado do mercado ou do lado do povo, não me parece haver outra alternativa, o que se pretende fora desses dois caminhos só pode ser um lerdo mergulho no pântano da mediocridade.

Com nossa mania de a tudo nominar e a tudo dar uma utilidade prática, inclusive e sobretudo código-de-barra, tornamo-nos, então, especialistas em gestão pública e sociedade. O que isso pode significar na atual conjuntura, na relação política entre as questões do setor público e a esmagadora presença da iniciativa privada, no Brasil e no mundo? Pode representar alguma coisa e pode significar absolutamente nada, depende de que lado estamos e em função do quê e de quem empregaremos nossos conhecimentos.

Permitam-me, ainda, que teça algumas considerações sobre esse contexto sócio-político-econômico a que estamos submetidos. Que mundo é esse? Que estranho labirinto em que está metida a vida humana?

Recentemente um navio de ajuda humanitária ao povo palestino foi trucidado pelo dantesco poder bélico israelense; a base de Guantánamo, sob poder dos estados unidos, continua um laboratório de desrespeito aos direitos humanos; a dor e a desgraça do povo haitiano não é mais manchete para a mídia-vampiro; as privatizações e terceirização do setor público continuam defendidos, por líderes políticos, como a salvação econômica dos estados; a maioria dos políticos brasileiros sai de seus mandatos, inexplicavelmente, muitíssimo mais rica; o agronegócio cada vez mais fabricando desertos, envenenando o solo, disseminando os transgênicos, praticando trabalho escravo e produzindo, dentre outros, muita soja para as vacas da Europa e estados unidos; a mídia brasileira é tão perversa e leviana que durante dias a fio, trata, exaustivamente, do julgamento do casal Nardoni e nada diz do julgamento dos assassinos da irmã Dorothy Stang; desfia diuturnamente a morte de um fantasma chamado Michael Jackson e silencia a perda de artistas tão nossos como Mercedes Sosa e Augusto Boal; a esta maldita pedagogia do pensamento único missionado pela mídia, chamamos de a síndrome da antena parabólica – pensar contra os fazendeiros do ar é tarefa que desagrada a muitos.

É, no mínimo, ridícula e constrangedora, essa onda infantóide de confundir futebol com patriotismo; por que não há uma mobilização contra o analfabetismo crônico? Por que não há uma campanha massiva pela reforma agrária? Por que o povo brasileiro não torce para o fim das favelas, pela educação, ciência, moradia, saúde pública, ao invés de endeusar uma dúzia de sujeitos que ganha um oceano de dinheiro para chutar bola? Onde está a mobilização nacional a favor do povo de Pernambuco e Alagoas atingido por catástrofe natural?

No Tocantins, muito da questão pública é tratada como espaço privado, particular, assunto de cozinha, conversa de comadre; é uma luta desigual, como deus e o diabo na terra do sol, para lembrar o saudoso Glauber Rocha.

É neste contexto que estamos inseridos, que discutimos e atuaremos, uns mais, outros menos, nas questões da gestão pública. Sou um pessimista esperançoso. Apesar dos pesares, ainda creio que os movimentos sociais têm um papel extraordinário na tarefa da democratização do Brasil, e nessa permanente batalha nós não podemos ser omissos, simplesmente por uma questão ética. O lucro pelo lucro, o acúmulo de riquezas, jamais deveriam estar acima da dignidade humana. Por isso, estou com Saramago, quando disse que não devemos perder a idéia de que o mundo deve ser outro e não esta coisa infame que está aí. Concordar com essa realidade espúria é comportamento de gado manso, condição que por certo devemos renunciar.

Em nome de meus colegas, digo muito obrigado ao Édi e aos demais colaboradores, na pessoa do Felipe, da UNESP, que veio de São Paulo para contribuir com o nosso curso.

O mundo tem que ser outro!

Obrigado!

Palmas – TO, 25 de junho de 2010.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Um poema de Pedro Tierra


Tive terra
Não tenho.

Tive casa
Não tenho.

Tive uma pátria
Venderam.

Tive filhos
Estão mortos ou dispersos.

Tive caminhos
Foram fechados.

(Foto de Sebastião Salgado)

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Arnaldo Antunes na UFT

Dia 14 de maio, sexta-feira, o ex-Titãs Arnaldo Antunes fará show na UFT, acompanhado do importante guitarrista Edgard Scandurra. Vou marcar presença, com certeza!

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Vocação para o fogo
















Comungo dos segredos da tua casa
E da clandestina festa dos teus pássaros.

Nado contra a noite e seus labirintos,
Ao pé da fogueira que sempre nos uniu:
Ideais consumidos no moinho do sonho,
Nas ruínas de velhos combates.

Aprecio tua vocação para o fogo.
Dos teus olhos recolho a urgente
Sensualidade dos relâmpagos
E a força sagrada de sua cólera.

Fui abençoado no calor
Dos teus seios!


(Do livro: Perto do Fogo – Trilogia do Amor,
da Terra e da Esperança)

Filhos do Fogo


Mariana Ianelli






















Não foi o cansaço da jornada
Que de novo nessa noite nos venceu,
Mas um sofrimento antigo, igual a sempre,
A realidade com sua mão espadaúda
Juntando a poeira de uns castelos demolidos,
De tudo extraindo o que sobra de nosso, afinal:
O irreversível.
Cultivamos rituais silenciosos,
Temos dentro de nós a alma do mundo.
Fomos feitos para a solidão,
A mesma que sente um animal
Ao largar o seu rebanho
E esperar a morte suavemente
Numa longa tarde de chuva em Gibeon.
Damos calor às coisas enquanto é tempo
E mais tempo há enquanto estamos mudos.
Gozamos um amor tranqüilo, sem heroísmo.
Assim acontece certas vezes, por espanto:
De um golpe, o infinito nos apanha.
(Do livro Fazer Silêncio – Iluminuras)


sexta-feira, 16 de abril de 2010

Poemas do povo da noite

A poesia é matéria de subversão, notícia incapturável, mãe de toda metáfora, ofício que oscila entre o abandono das coisas vilipendiadas e o fascínio de enigmas inomináveis. “Não marca hora e nem lugar”. Uma poesia que nasce de um tempo sombrio, da escuridão, do delírio, da dor subterrânea, do grito proibido, do verbo estilhaçado, uma voz que conduz a sede e a fome de liberdade de toda uma geração, é um canto entendido em ressurreição. Assim o poeta Pedro Tierra teceu, nos cárceres da ditadura militar, Poemas do povo da noite, um livro de memória e denúncia, imprescindível à história de luta do povo brasileiro – um monumento literário de resistência às atrocidades do regime militar. O autor é um sobrevivente e, agora, nos brinda, com a reedição da obra, para lembrar os trinta anos da Lei de Anistia.

Pedro Tierra é o pseudônimo que Hamilton Pereira da Silva, filho de Porto Nacional, adotou para driblar os agentes da repressão sobre a verdadeira identidade do autor daqueles versos escritos no calabouço. Os poemas saíam da prisão pelas mãos generosas do padre Renzo Rossi e do advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, escritos em pequenos papéis de maço de cigarro, dentro de canetas Bic amarelas. Tierra foi preso em 1972, quando tinha 24 anos, e cumpriu cinco anos de reclusão. Era acusado de subversão e de atentar contra a segurança nacional. Viu morrer, sob a tortura, inúmeros companheiros; sofreu na própria carne a insanidade de seus algozes, mas sobreviveu para continuar lutando pela democracia, cantando em defesa da vida, da liberdade humana.

O livro foi editado primeiro na Espanha, cuja edição fora premiada com Menção Honrosa pela Casa de las Américas. Anos depois, traduzido para o alemão, italiano, francês e inglês. Ainda em 1978 uma revista alemã publicou alguns poemas de Pedro Tierra em conjunto com textos de Thiago de Mello, Josué de Castro, dom Hélder Câmara e João Cabral de melo Neto, sob o título de “Um novo céu – Uma nova terra”. Somente em 1979, após conhecido na Europa e países da América Latina, “Poemas do povo da noite” chega ao Brasil.

No prefácio, Pedro Casaldáliga afirma que “ninguém pode ler estas páginas como quem desfolha mais um poema.” O jornalista Cláudio Abramo, num artigo de 1981, publicado pela Folha de São Paulo, manifestou a grata surpresa de descobrir a obra do jovem poeta ex-preso político, e que “gostaria de mostrar os versos de Pedro Tierra a Giuseppe Ungaretti, a T. S. Eliot, a Stephen Spender.” O importante pensador cristão, Tristão de Athayde, resenhou o livro em 1979, e destacou: “Assim como Garcia Lorca ficou gravado na história literária da Espanha como o poeta da resistência espanhola ao terrorismo franquista, esse jovem brasileiro de nome espanhol ficará provavelmente como a maior expressão poética da resistência ao terror ditatorial dos nossos últimos quinze anos.”

“Fui assassinado/ Morri cem vezes/ e cem vezes renasci/ sob os golpes do açoite. (...) Em cinco séculos/ reconstruí minha esperança./ A faca do verso feriu-me a boca/e com ela entreguei-me à tarefa de renascer.” Escreveu o poeta no poema de abertura do livro. Oportuna e necessária a leitura de Poemas do povo da noite, pelo o que revela, pela grandeza de espírito de uma arte praticada em tempos soturnos. Ainda mais agora, momento em que se discute, com avanços e recuos, a punição aos autores desses crimes que macularam a recente história da democracia brasileira.

Show do Dado Villa-Lobos, em Palmas

Ontem, show do Dado. Começou tarde. O som precário. Ouvi o ex-Legião, foi bom. Em Palmas, é raro contarmos com shows de qualidade. Ainda vi velhos companheiros de antigas e sempre novas batalhas. Valeu!

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Renato Russo: trovador de uma geração


Os
filósofos Bertrand Russell, Rousseau e o pintor primitivista Henri Rousseau inspiraram o sobrenome artístico do líder da Legião Urbana: Renato Manfredini Jr – o Renato Russo -, que teria completado 50 anos há poucos dias. Leitor compulsivo, cinéfilo, letrista e vocalista da banda que comoveu e sacudiu o imaginário de uma extensa geração de fãs. O trovador solitário, como ficou conhecido, tem diploma de eternidade no dicionário do rock nacional. Para mim, ainda impossível esquecer a efervescência musical daquele período.

Faroeste caboclo, 1988: aqueles 159 versos, nove minutos de duração, tocava diariamente, várias vezes, nas rádios de Brasília. Não raro, até crianças balbuciavam aquela canção assustadoramente imprevisível, densa, arrebatadora. No transporte coletivo, nos bares, nas praças, na televisão, Faroeste caboclo tornou-se uma espécie de hino urbano na boca da multidão.

O tumultuado show no Mané Garrincha foi um episódio sintomático da tensa relação do público com seu ídolo, já em estado de mito. De ingresso na mão, ansiedade à flor do vento, pois afinal seria o primeiro espetáculo daquela magnitude que eu veria na capital do concreto. Ao adentrar o estádio, logo vi a multidão agitada, sedenta pelos primeiros acordes febricitantes da Legião e os versos voando da boca mítica do ídolo. Com atraso, a banda entrou em cena; não demorou muito a primeira agressão ao Renato, e em seguida a desordem instalou-se para frustrar com o que prometida ser uma noite inesquecível pela beleza musical e poética. No dia seguinte, os jornais nos davam a dimensão do estrago provocado por ‘fãs’ ensandecidos.

Ficou o desejo de ouvir, ao vivo, canções como: “Vamos celebrar a estupidez humana/ A estupidez de todas as nações/ O meu país e sua corja de assassinos/ Covardes, estupradores e ladrões...” ou “Viajamos sete léguas/ Por entre abismos e florestas/ Por Deus, nunca me vi tão só/ É a própria fé o que destrói/ Estes são dias desleais...” ou ainda Geração coca-cola, e tantas e tantas outras.

Há três anos, para mitigar um pouco a lembrança daquele tempo, vi um show do Dado Villa-Lobos, ex-guitarrista da Legião, no auditório de uma livraria carioca. Além de faixas da carreira solo, Dado lembrou do amigo menestrel e apresentou canções que fizeram juntos - o público cantou em coro. De quebra, Paula Toller estava lá e soltou a voz com o parceiro de confraria.

Renato Russo, um artista talhado em sensibilidade política e social, Quixote do Planalto Central, refinada ironia, inteligência em metáforas definitivas, plantou raízes na memória da discografia brasileira. Seus fãs ainda merecem uma biografia mais alentada, além dos expressivos trabalhos dos jornalistas Arthur Dapieve e Carlos Marcelo. Nestes tempos de glossolalia ‘musical’, entre espanto e desespero auditivo, oportuno ouvir o trovador que sempre autografava com aquela irrenunciável expressão “Força sempre!”.

Eleições 2010: entre anjos e demônios



Requentados discursos surrados, estratégia eleitoral na palma da mão, alentado orçamento de campanha e promessas de redenção de todas as mazelas sociais, é, certamente, o cardápio que nos aguarda, outra vez, para as eleições deste ano. Glauber Rocha vivo estivesse bem que poderia nos filmar, noutro plano, sob aquele inesquecível título: Deus e o diabo na terra do sol. Estamos em alto mar – sugere perigo – cantaria o poeta dos escravos.

Padecemos, inescrupulosamente, de ávida sede por um cargo comissionado fantasma, um jeitinho brasileiro, uma migalha de gabinete. Neste caso, uma simples canetada ou algo similar nos faz elevar qualquer político – qualquer mesmo – à glória de Bernini. Logo, só é corrupto o político que não serve aos nossos escusos caprichos individuais; e que se lixem aqueles que, apesar dos pesares, ainda lutam pelo bem da coletividade. Assim somos, políticos e eleitores, anjos e demônios, ambos órfãos de maior consciência social e exercício de cidadania.

Ingenuidade querermos políticos com estrela na testa para distinguirmos os bons dos maus. Talvez uma olhadela na biografia, no passado político e social – não é tarefa impossível - seja o suficiente para se saber quem é ou não merecedor do nosso voto de confiança. Podemos listar várias categorias de políticos modernos, a maioria picada pela sedução da mosca azul machadiana: herdeiros de Maquiavel; Roby Woods ao contrário; aprendizes de Al Capone ; São Franciscos de Wall Street; Faustos de Goethe (vendem a alma ao diabo e não entregam); e aqueles poucos que ainda pensam e trabalham em defesa dos direitos inalienáveis do ser humano.

O direito-dever de votar é uma condição especial. Podemos escolher segundo os ditames da justiça social, da cidadania participativa, ou simplesmente entregar nosso voto como metal vil num mercado de embusteiros – sofisticados vendilhões do templo. Bom seria vermos todos os políticos incinerando a paciência nos hospitais do SUS e seus filhos nas escolas públicas; como tratam suas empregadas domésticas; como lidam com seus funcionários. Que natureza de projetos defendem? Estão do lado de quem? ‘No Brasil, parece que o melhor exemplo de ética política foi aquele vivenciado pelos presos do Carandiru’, declaração de alguns ex-presidiários.

“Diga-me com quem andas que eu saberei quem és”, adaptada assertiva popular bem-vinda para se avaliar o perfil e a agenda dos candidatos nas próximas eleições. A cada eleição, em jogo ficam: garantias de conquistas populares, o patrimônio público, a autonomia de instituições que primam pela democracia, a preservação do meio ambiente, a questão agrária, os direitos básicos de cidadania.

Quando outubro chegar, nosso voto terá seu valor intransferível, disputadíssimo – sentença que nem sempre levamos muito a sério. Nossos ouvidos podem rejeitar aquela velha cantilena dos políticos que negam o passado e o presente para doutrinar sobre os pseudo-milagres do futuro. Bem disse, em sã loucura, o ilustre Tom Zé: o futuro é um avião cansado de ser passarinho.